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Entre o mármore e a memória: Brasília além do concreto

Por Joyce Matias


Brasília se revela antes mesmo das palavras.Às vezes, basta olhar pela janela. O horizonte amplo, o concreto contido, o silêncio que atravessa os prédios e chega até quem observa. É desse lugar — entre o mármore e o céu — que nasce este texto.


Para mim, Brasília nunca foi apenas arquitetura. O concreto que sustenta seus monumentos carrega histórias que não aparecem nos livros, nem nas placas comemorativas. Ele guarda passos, ausências, cartas que pararam de chegar e sonhos que insistiram em continuar.


Meu avô saiu do Piauí para trabalhar como mestre de obras na construção da capital. Como tantos outros homens, partiu movido por um sonho — não apenas o sonho de Juscelino Kubitschek, mas o sonho coletivo de um Brasil que acreditava em si mesmo. A força de trabalho masculina saiu em massa. E, com ela, o sustento de muitas famílias.


As cartas começaram a falhar. O dinheiro deixou de chegar. E o que ficou para trás foi um cenário duro, quase invisível na narrativa oficial: mulheres com filhos pequenos, dependentes de um sistema que havia retirado seus provedores sem oferecer retorno.


A fome se instalou. A miséria se espalhou. Para muitas, era como se uma maldição tivesse atravessado aquelas casas — não por falta de coragem, mas por falta de escolha.


Nem todas as mulheres conseguiram ir. Mas algumas decidiram não esperar.

Minha avó foi uma delas. Sem notícias claras, com filhos pequenos — minha mãe tinha apenas um ano de idade — ela fez o que parecia impossível. Trabalhou como pôde, nadou até o fundo do rio Parnaíba para retirar argila, moldou vasos com as próprias mãos e vendeu o que produzia para juntar o necessário. E então partiu. Pegou os filhos e veio para Brasília em um pau de arara, atravessando estradas, riscos e incertezas.



É por isso que, para mim, o concreto não é símbolo vazio. Ele é vida. É fome superada. É travessia. É coragem feminina. É permanência. Ele representa os pioneiros que acreditaram, mas também as mulheres que sustentaram o sonho quando tudo parecia ruir.


Juscelino dizia que Brasília era um símbolo do poder de realização dos brasileiros. Talvez seja. Mas é também o símbolo de um país erguido por quem acreditou — e por quem precisou resistir. Um país feito não só de grandes nomes, mas de mulheres anônimas que se recusaram a desaparecer.


Entre o mármore e a memória, Brasília segue nos ensinando que cidades também são feitas de pessoas. E que alguns sonhos só se tornam chão porque alguém teve coragem de atravessar a fome, o silêncio e o medo para fazê-los existir.



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